My Irreversible Point of View

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Sunday, February 25, 2007

Análise geopolítica da Geórgia

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POR: ALEXANDRA RIBEIRO, DANIELA GOMES E MARTA MARTELO

A Geórgia é uma pequena república da região do Cáucaso, situada entre a Europa e a Ásia. Faz fronteira, a noroeste, com a Rússia, a sul com a Turquia e a Arménia, a sudeste com o Azerbaijão, e a oeste está localizado o Mar Negro.
Ocupa uma superfície de cerca de 69 700 km², sendo a população total um pouco mais de cinco milhões de habitantes. A capital georgiana é Tbilisi, na qual habitam cerca de 1 800 000 pessoas. Além disso, é composta por três repúblicas autónomas – Adzhar, Abkhasia e Ossétia do Sul –, sendo as duas últimas províncias separatistas pró-Rússia.
Declarada a sua independência face à U.R.S.S.[1] a 9 de Abril de 1991, o país passa de República Socialista Soviética da Geórgia para República da Geórgia, e Zviad Gamsajurdia é eleito presidente. Em 1993, a Geórgia ingressa na Comunidade dos Estados Independentes (C.E.I.).
No entanto, a situação política do país não deu sinais de melhoria logo após a sua independência: uma vez que a Ossétia do Sul tinha declarado a sua independência[2] e o movimento separatista abkhase[3] criado a República Autónoma da Abkhasia, a Geórgia envolveu-se, entre 1992 e 1993, numa violenta guerra civil, lançando uma ofensiva militar contra os ossetas e os abkhases. Os conflitos entre o governo georgiano e os movimentos separatistas da Ossétia do Sul e da Abkhasia terminaram oficialmente com o envio de forças de paz da C.E.I. e de uma missão de observadores da Organização das Nações Unidas.
Da mesma forma, a situação socioeconómica não era brilhante e encontrava-se praticamente em estado de falência. A pobreza, a inflação e o desemprego atingiam patamares elevadíssimos; a corrupção estava presente em quase todos os domínios da vida política e empresarial; em termos político-estratégicos, a pressão e influência exercidas pelo grande vizinho – a Rússia – pareciam estar a por em causa a integridade territorial georgiana.

CONTEXTO HISTÓRICO


Ao longo da história, houve dois momentos verdadeiramente marcantes da constituição da Geórgia como país: a unificação do reino georgiano e a independência do país em relação à URSS.
Após ter sido ocupado pelos gregos, romanos, bizantinos e árabes, o território georgiano constituiu-se num reino no século XI. O Reino Georgiano, outrora conhecido pelos gregos e romanos por Ibéria, foi uma das nações da região do Cáucaso que tinha adoptado o Cristianismo como religião oficial.
Em 1783, a Geórgia passou a fazer parte do Império Russo.
Por outro lado, o ano de 1917 foi alvo de alterações de carácter revolucionário que, marcaram profundamente a Rússia. É a partir da Revolução Russa de 1917 que o Partido dos Bolcheviques, fundado por Vladimir Lenine, sobe ao poder, pondo fim ao Império Russo ou à chamada Rússia czarista. No entanto, as organizações partidárias dos países transcaucasianos[4] não reconheciam a legalidade das transformações que tiveram lugar em plena Rússia.
Deste modo, em Novembro do mesmo ano, os países transcaucasianos resolveram criar o seu próprio governo – a Federação Transcaucasiana[5] –, basicamente composto por partidos locais. A partir daí, começou o processo de separação da Transcaucásia da Rússia bolchevique.
Em Maio de 1918, o parlamento transcaucasiano declarou a abolição da federação e, no dia 26 do mesmo mês, a Geórgia viu proclamada a sua independência formando-se, assim, a República Democrática da Geórgia. Dois dias mais tarde, foi a vez da Arménia e do Azerbaijão.
O primeiro governo da República da Geórgia, de cariz social-democrata, foi liderado por Noe Zhordania (chefe do partido social-democrata georgiano). Contudo, a jovem república deparou-se com uma série de dificuldades económicas: a Primeira Guerra Mundial teve consequências desvastadoras para a economia georgiana, e a situação agravou-se com o corte de relações (também de cariz económico) com a grande Rússia e outros países.
A situação política encontrava-se igualmente em crise: por um lado, a jovem república georgiana não era reconhecida pelos vizinhos soviéticos; por outro lado, as disputas territoriais com o Azerbaijão, e a reclamação de territórios do sul da Geórgia por parte da Arménia contribuíram para o aumento das hostilidades entre os países da Federação Transcaucasiana. Consequentemente, a Transcaucásia envolveu-se numa sangrenta guerra civil. O cessar-fogo apenas teve lugar mais tardiamente graças à intervenção britânica.
Aproveitando-se da fragilidade da Transcaucásia em geral, e em particular da Geórgia, a Rússia soviética reiniciou, em 1920, o processo de intervenção e de anexação das suas áreas de influência.
Em 1921, a União Soviética invadiu a Arménia, o Azerbaijão e a Geórgia, estando estes países, novamente, sob domínio russo. No mesmo ano, foram integradas as regiões da Abkhasia e Adzhar em pleno território georgiano e, no ano seguinte, foi a vez da Ossétia do Sul.
Desde a declaração oficial da União Soviética em 1922, a estrutura sociopolítica da Geórgia sofreu profundas alterações: as forças armadas, os partidos não proletários e a propriedade privada foram abolidos; foi dada uma especial atenção ao sector económico, no qual se constataram fortes desenvolvimentos. Relativamente ao sector industrial, foram construídas inúmeras fábricas, estações hidroeléctricas, entre outras. Quanto à agricultura, apostou-se na cultura de citrinos e do chá. Contudo, os sectores vitais para a vida do país passaram a ser controlados por Moscovo.
Nos inícios da década de 30, os territórios sob domínio soviético sofreram fortes repressões por parte de Estaline e milhares de pessoas, particularmente muitos georgianos, que se revelaram contra o regime soviético foram enviadas para campos de concentração (gulags). Houve igualmente, em solo georgiano, várias tentativas separatistas por parte de alguns movimentos rebeldes anti-soviéticos. Após o sucessivo falhanço dessas tentativas, a Geórgia tornou-se uma das repúblicas soviéticas[6] em 1936.
Na sequência da participação da U.R.S.S. (1941) na Segunda Guerra Mundial, a Geórgia viu-se obrigada a sacrificar-se em termos de recursos materiais e humanos, contribuindo para a mobilização das forças soviéticas na luta contra o avanço das tropas nazis.
Neste contexto, a Geórgia teve um papel fundamental na produção de armamento para a U.R.S.S., tendo ainda sido a principal acolhedora dos refugiados provenientes dos territórios ocupados pelos nazis.

Após a Segunda Guerra Mundial, a Geórgia atravessou um período de grande instabilidade política e económica.
Até 1953, ano da morte de Estaline, o país viveu sob forte repressão ideológica por parte do Kremlin. A partir dessa data e até inícios da década de 60, o povo georgiano manifestou, nas ruas de Tbilisi, o seu desagrado face à repressão exercida pelo Kremlin e à corrupção que reinava na sede do poder georgiano. Para além disso, a economia georgiana parecia não caminhar em direcção ao progresso.
A subida ao poder de Mikhail Gorbachev[7] em 1985 marcou uma viragem na história do socialismo soviético. Sem demora, Gorbachev iniciou uma política de reformas inéditas, entre as quais se destacavam a perestroika (reestruturação) e a glasnost (transparência). Desta forma, a economia da U.R.S.S., particularmente a da Geórgia, deu os primeiros passos rumo ao progresso.
Finalmente, em 1991, declarou-se oficialmente a dissolução da U.R.S.S. e, consequentemente, foi criada a Comunidade dos Estados Independentes (C.E.I.).
Torna-se ainda imperativo salientar que, a perestroika empreendida na União Soviética constribuiu para o afloramento de movimentos separatistas na Geórgia; os nacionalistas ganharam as eleições em 1990 e a nova assembleia proclamou, em 9 de Abril de 1991, a independência da Geórgia.

POLÍTICA EXTERNA GEORGIANA

Embora seja um estado independente, o território georgiano continua a ser vítima constante de ameaças por parte dos movimentos separatistas (pró-russos) da Abkhasia e da Ossétia do Sul e, ainda, de tentativas de interferência pela Rússia.
Tais factos contribuem, inevitavelmente, para uma escalada da tensão diplomática entre a Geórgia e o Kremlin. Todavia, o problema relacionado com as duas províncias anteriormente referidas não constitui apenas uma questão interna da Geórgia; constitui, antes, uma questão relacionada com uma área de influência que a grande Rússia não quer perder. Aliás, o próprio presidente russo, Vladimir Putin[8], não vê outra solução para o problema interno da Geórgia, senão a manutenção definitiva da Rússia na sua área de influência, o que é impensável aos olhos de Mikheil Saakashvili[9].
Próximo do ocidente, particularmente dos Estados Unidos da América, Saakashvili pretende integrar a Geórgia na NATO, embora o Kremlin considere inaceitável essa candidatura, acusando o presidente georgiano de ser anti-russo.
De facto, a Geórgia constitui um ponto vital para a Rússia pois, estando localizada na região do Cáucaso, situa-se perto dos principais centros petrolíferos. É de realçar, ainda, a dependência da primeira relativamente à segunda, nomeadamente em matérias de extrema importância para a sua sobrevivência: os sectores do comércio e da energia (gás natural), e o facto de cerca de um milhão de georgianos trabalharem na Rússia, cujas remessas monetárias representam entre 15% a 20% do PIB.
No entanto, em Outubro de 2006, na sequência da detenção de quatro espiões russos em solo georgiano, a tensão diplomática entre os dois países agravou-se. Consequentemente, a Rússia impôs sanções ao seu vizinho, desde o bloqueio em qualquer tipo de transportes, à ameaça da proibição da saída das remessas dos imigrantes georgianos.
Assim sendo, podemos referir que, desde a independência em 1991 até aos dias de hoje, a Geórgia tem-se revelado um país bastante frágil, a nível político-estratégico e económico, e vulnerável a uma possível “invasão” russa.
O que poderá fazer a Geórgia para sair definitivamente deste contexto sombrio e, afirmar-se, finalmente, como um verdadeiro estado soberano?
Uma eventual adesão à NATO poderá fazer com que o país possua um exército ainda mais bem preparado e sempre pronto para a protecção das fronteiras nacionais e a manutenção da segurança interna face a ameaças exteriores. Além disso, esta adesão implicaria uma estreita aproximação da Geórgia aos Estados Unidos e à União Europeia, o que poderia ser vantajoso, uma vez que permitiria uma maior projecção do país a nível internacional.
De facto, o país tem recebido, recentemente, o apoio incondicional dos E.U.A., como sendo uma forma de resolver os problemas internos. Manifestando um grande interesse na segurança e estabilidade da Geórgia, os E.U.A. têm vindo a proporcionar treino e apoio militar às forças armadas georgianas. Tudo isto tem um único objectivo: reduzir a influência russa na região do Cáucaso.
Por outro lado, a Geórgia deverá formar uma parceria económica com um outro ou mais estados afim de reduzir a sua dependência relativamente à Rússia, cujos actos desempenhados até agora têm sido prejudiciais para a economia caucasiana.
Recentemente, Israel e a Turquia decidiram construir um canal energético entre o Mar Negro e o Mar Vermelho que servirá para o transporte de petróleo, gás natural, electricidade, água e cabos de fibra óptica. Se este projecto vier a concretizar-se contribuirá, de certa forma, para a estabilidade e desenvolvimento económico regionais, e para o surgimento de novos pólos energéticos da região (Israel e Turquia).
Acrescenta-se, ainda, que este projecto contará com a participação de outros países da região, incluindo a Rússia.
De facto, a participação da Geórgia nesse acordo seria interessante e, de certo modo, benéfica para o país, pois seria uma boa forma de se aliar à Turquia, membro da NATO, e a Israel, um forte aliado dos E.U.A e da U.E. Resumindo, seria uma óptima estratégia de consolidação da sua economia e de aproximação ao mundo ocidental.
No entanto, a participação da Rússia nesse projecto poderá colocar entraves ao progresso da economia georgiana. Considerando a Geórgia como uma área vital, o grande vizinho russo não arriscará em comprometer a sua influência na região, principalmente se aquela aderir a tal projecto.
Estará, então, a Geórgia condenada a perder a sua soberania para o gigante vizinho ou, pelo contrário, apta a começar a caminhar por si própria?
Perante a incerteza do futuro do país, as respostas poderão ser várias, mas uma certeza podemos ter – a crise Geórgia-Rússia está longe de ter o seu fim.


[1] União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (actual Federação Russa ou Rússia).

[2] A independência da Ossétia do Sul constituiria o primeiro passo de integração à república russa da Ossétia do Norte.

[3]Este movimento não é reconhecido pelo governo georgiano.

[4]Arménia, Azerbaijão e Geórgia.

[5]Também conhecida por Comissariado Transcaucasiano.

[6]A Geórgia passou, assim, a ser oficialmente designada por República Socialista Soviética da Geórgia.

[7]Gorbachev foi o último presidente da U.R.S.S.

[8]Putin está no poder desde 1999.

[9]Eleito em 2004, é o actual presidente da Geórgia.

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