My Irreversible Point of View

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Thursday, September 20, 2007

1965: Segunda Guerra Indo-Paquistanesa

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Tal como foi referido anteriormente, o conflito entre a Índia e o Paquistão estava longe de ser definitivamente resolvido com o cessar-fogo de 31 de Dezembro de 1948, o qual constituía nada mais do que uma simples trégua militar entre os dois países. Apesar da suspensão temporária do conflito em termos bélicos, ambos se disputavam entre si através de meios diplomáticos, como se de uma diplomacia coerciva[1] se tratasse.
No início da década de 50 do século XX, poucos anos após o começo da Guerra Fria e a partição do subcontinente indiano, o regime militar paquistanês de Ayub Khan resolveu integrar-se numa rede de alianças com os países do bloco ocidental, particularmente os Estados Unidos da América. Como um dos principais aliados dos americanos no sudeste asiático, o Paquistão encontrar-se-ia numa posição, de certo modo, privilegiada, nomeadamente aquando da sua entrada para o Pacto de Bagdade ou CENTO (Central Treaty Organization) e para a SEATO (Southeast Asian Treaty Organization[2]). Neste sentido, o país, juntamente com o vizinho iraniano, serviria de Estado-tampão a qualquer tentativa expansionista por parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, adoptando assim um dos princípios fundamentais da Doutrina Truman: a política de containment.
A adesão paquistanesa, durante a década de 50, às organizações ou pactos militares patrocinados pelos Estados Unidos não foi senão uma forma de garantir que o Paquistão recebesse a longo-prazo um notável apoio militar e económico por parte dos americanos. Ao contrário do Paquistão, a Índia manifestou-se desinteressada, embora segura, em se aliar a qualquer um dos blocos, ocidental e comunista, empenhando-se, desta forma, em representar o Movimento dos Não-Alinhados, longe de qualquer conflito de cariz ideológico.
Na sequência da guerra sino-indiana de 1962, o Paquistão resolveu incrementar uma aliança estratégica com um país comunista: a China[3]. Encarando esta aliança como uma ameaça aos interesses do bloco ocidental, os Estados Unidos decidiram reduzir o apoio militar ao Paquistão. Deste modo, o relacionamento inicialmente privilegiado entre paquistaneses e americanos começou a entrar em crise. A própria Índia, incapaz de superar a humilhação face à derrota frente à China, também observou na aliança sino-paquistanesa algo consideravelmente perigoso para a segurança do país, em geral, e para a segurança de Jammu e Caxemira, em particular.
Perante um clima de profunda agitação política caracterizado pelo irresistível ressurgimento do ódio entre hindus e muçulmanos, a Índia e o Paquistão envolveram-se em novos confrontos directos em 1965.
A segunda guerra indo-paquistanesa teve início em Rann de Kutch[4], uma área praticamente abandonada e desabitada, caracterizada pelos seus terrenos inférteis e improdutivos. As forças armadas indianas e paquistanesas desenvolviam uma série de actividades de patrulha em tal área, repartidas em duas fases: a primeira ocorreu em Março e a segunda em Abril. No entanto, estas actividades de patrulha transformaram-se, num curto espaço de tempo, em violentos confrontos directos. Em Junho do mesmo ano, por iniciativa do Primeiro-Ministro britânico Harold Wilson, ambos os países foram persuadidos a dar início ao cessar-fogo. Como resultado deste processo, o Paquistão conseguiu absorver com sucesso cerca de 10% de Rann de Kutch.
Perante o sucedido, a crença na possibilidade de derrotar definitivamente a Índia e de anexar Jammu e Caxemira contribuiu para o aumento exorbitante da confiança, em termos estratégicos, por parte do presidente paquistanês Ayub Khan. Em contrapartida, o descontentamento desmedido por parte da Índia despertou a atenção do país em torno da frustrada derrota de 1962 face à China e de uma eventual derrota frente ao Paquistão, intolerável e inimaginável aos olhos do povo indiano. Por conseguinte, o exagero implícito nas atitudes de ambas as partes fez com que o conflito reentrasse em erupção.
Em Agosto de 1965 foram infiltrados secretamente vários conjuntos de guerrilhas sob o comando de Ayub Khan em Jammu e Caxemira, com o intuito de fomentar um movimento rebelde de resistência junto da respectiva população muçulmana. Esta operação[5], levada a cabo pelas tropas paquistanesas, rapidamente se transformou num acto falhado[6] na sequência da captura dos respectivos infiltradores pelas tropas indianas. Como resposta à tentativa paquistanesa de infiltração massiva de guerrilhas, as forças indianas atravessaram a linha de cessar-fogo de 1949 e a Fronteira International[7], lançando uma série de ataques em direcção a Azad Caxemira e Territórios do Norte. Consequentemente, a Índia absorveu alguns territórios da Pakistan-administred Kashmir.
Na sequência do falhanço da primeira operação, o Paquistão pôs em marcha uma nova operação militar[8], em inícios de Setembro, lançando um violento contra-ataque em direcção à área de Bhimbar-Chhamb, para a recuperação de territórios e de alguns postos vitais adquiridos pela Índia. Mais uma vez, as tropas paquistanesas, surpreendidas pela virilidade e forte resistência das forças indianas, não conseguiram alcançar os seus objectivos centrais, o que permitiu aliviar a frustração indiana face à derrota de 1962 e elevar o seu nível de confiança estratégica.
Apesar de o Paquistão ter assinado juntamente com o representante do bloco ocidental um Acordo de Cooperação/Aliança Mútua, os Estados Unidos declararam a sua neutralidade na guerra, decretando um embargo à venda de armas, não apenas ao beligerante paquistanês, mas também ao beligerante indiano. Acredita-se, de facto, que o esforço guerreiro paquistanês foi largamente prejudicado neste âmbito.
A guerra de 1965 caracterizou-se, sobretudo, por um conjunto de novidades estratégicas semelhantes às da Segunda Guerra Mundial (1939-1945)[9]:

· Capacidade e técnicas de guerra sofisticadas: utilização da aviação e ganho da importância das operações aero-navais.
· Tentativa de fomentar movimentos civis rebeldes: operações para a infiltração “coberta” (covert infiltration)[10] de guerrilhas na área disputada.
· Ataque à moral do inimigo: invasão, bombardeamento e tentiva de recuperação de territórios alheios “ocupados ilegalmente” (...).

Perante um clima de hostilidades profundas e inacabáveis, a ONU foi, mais uma vez, obrigada a intervir. A 20 de Setembro, o Conselho de Segurança adoptou unanimemente uma resolução[11], que exigia um cessar-fogo incondicional por parte das duas nações[12]. No entanto, a situação permaneceu tensa pelo menos até finais de 1965, devido a alegadas violações do processo de cessar-fogo e à manutenção de ambas as forças em territórios alheios por um período de tempo.
A guerra finalmente terminou graças à mediação e esforços empreendidos pelo Primeiro Ministro da URSS, Alexey Kosygin, que conseguiu convencer o Primeiro Ministro indiano Lal Bahadur Shastri e o Presidente paquistanês Ayub Khan a assinar, em Janeiro de 1966, um acordo de cessar-fogo, em Tashkent (actualmente, capital do Estado independente do Uzbequistão). Segundo o acordo, ambas as partes comprometer-se-iam a resolver as suas divergências através de meios pacíficos e aceitariam a retirada, até 25 de Fevereiro, das respectivas forças dos territórios ocupados anteriormente.
De certo modo, o cessar-fogo não constituiu senão uma resolução temporária para a crise de Caxemira que, tornando-se largamente duvidosa, nos conduz a um mundo cada vez mais rodeado de incertezas. Após um período de paz de seis anos, a Índia e o Paquistão envolveram-se num outro conflito (a guerra de 1971), causado pela guerra civil do Paquistão Oriental (o actual Bangladesh), quando ambas as partes violaram, uma vez mais, a linha de cessar-fogo e ocuparam territórios que estavam para além desta.

[1] A diplomacia coerciva, ou diplomacia de guerra, constitui o oposto da diplomacia de paz. Enquanto esta é, por excelência, o instrumento de resolução pacífica de conflitos e crises na área internacional, a diplomacia coerciva é frequentemente utilizada com o objectivo de os provocar ou de os ampliar.

[2] Em português, Organização do Tratado do Sudeste Asiático.

[3] Em 1963, o Paquistão cedeu à China uma extensa faixa de terra a norte da região montanhosa de Coracorum em troca da passagem de Mintaka.

[4] Situada no estado indiano de Gujarat, junto à fronteira com o Paquistão.

[5] Conhecida por Operação Gibraltar.

[6] Para uma análise sobre o falhanço da Operação Gibraltar, ver Šumit Ganguly, The Crisis in Kashmir: Portents of war, hopes of peace, Woodrow Wilson Center Press and Cambridge University Press, Washington, 1997, pp.55-56.

[7] Em inglês, International Border (IB).

[8] Operação “Grand Slam”.

[9] Fonte: Sebenta da cadeira semestral de História Diplomática, 3º ano de Relações internacionais, ISCSP, Ano Lectivo 2002/2003 (consultada em 16 de Maio de 2007).

[10] Paul Bowers, cit., p. 18.

[11] Ver a Resolução 211 em http://www.un.org/documents/sc/res/1965/scres65.htm.

[12] A Índia aceitou imediatamente o cessar-fogo devido à aliança “problemática e perigosa” entre o Paquistão e a China e às constantes ameaças que esta fazia à primeira após a guerra sino-indiana. Segundo os indianos, a rapidez com que o país aceitou o cessar-fogo foi uma forma de evitar um eventual conflito directo com o eixo inimigo Islamabad-Pequim.

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