My Irreversible Point of View

Unfortunately freedom of speech is not totally respected in some parts of the world. That is why I decide to express my point of view in the name of those who are not allowed to express themselves. STAND UP, SPEAK UP! STOP THE TRAFFIK

Thursday, December 20, 2007

Os interesses dos EUA na Ásia Central

.

A importância geopolítica e geoestratégica e o enorme potencial energético da Ásia Central tem suscitado apetites às potências vizinhas, particularmente os Estados Unidos. Desde a dissolução da União Soviética, em 1991, e face ao vazio de poder instalado na Ásia Central, os EUA não pensaram duas vezes, projectando assim a sua influência naquela vasta região.
Na década de 90 do século XX, os interesses dos EUA na Ásia Central circulavam essencialmente em torno do combate ao subdesenvolvimento económico, provocado pelo desmembramento da URSS e pela consequente independência das respectivas ex-repúblicas soviéticas[1], e do sector energético, mais concretamente ao nível do acesso a gasodutos e oleodutos da região. No entanto, os ataques de 11 de Setembro de 2001, efectuados contra o World Trade Center, em Nova Iorque, vieram mostrar aos norte-americanos que nos dias de hoje nenhum Estado está imune a qualquer ocorrência que ponha em causa a respectiva segurança nacional. Neste sentido, acentuaram as preocupações em torno do reforço da segurança, tanto a nível regional como a nível internacional, o que veio confirmar o fortalecimento da influência dos EUA na Ásia Central. Nessa altura, ficou claro que a instabilidade reinante em alguns países daquela região geográfica, caracterizada pelo caos económico, pelo fracasso do aparelho estatal, acompanhado pelo aumento da repressão e do autoritarismo, e pela existência de “santuários” de grupos terroristas (taliban, Al-Qaeda, Movimento Islâmico do Uzbequistão, Uigurs, etc.) e outras ameaças transnacionais, constituiria uma verdadeira ameaça à segurança dos EUA.
Fundamentalmente, a intervenção norte-americana na Ásia Central, particularmente no Afeganistão, a pretexto da “guerra contra o terrorismo”, veio redefenir aquilo que neste momento constituem os interesses vitais do país na Ásia Central: segurança, energia e democracia[2].
Por um lado, a presença contínua e multifacetada dos EUA na Ásia Central traz, eventualmente, benefícios para ambas as partes: enquanto prestam assistência no sentido de promover o desenvolvimento da democracia e da sociedade civil na Ásia Central, os norte-americanos vêm, de certo modo, concretizados os seus interesses geopolíticos, militares e securitários, como também o acesso à energia, a qual constitui uma das maiores fontes de riqueza da região. Por sua vez, os estados da Ásia Central são receptores de investimentos e da assistência no campo da segurança por parte dos norte-americanos.
Por outro lado, os interesses e a presença dos EUA na região não são vistos com bons olhos pela República Popular da China e pela Rússia, ambas com interesses de cariz imperalista. De um modo geral, a presença das forças norte-americanas na região faz aquelas duas potências pensarem em como o envolvimento dos EUA afectará os interesses russos e chineses. A China, em particular, encara tal presença como uma tentiva de encirclement, comprometendo as relações que esta mantém com as repúblicas da Ásia Central.
Por seu turno, a Rússia revela-se incapaz de abandonar totalmente o seu passado histórico, caracterizado pelo desejo de expansão do comunismo soviético a nível mundial, e muito menos de ultrapassar a "humilhação" do desmembramento da ex-URSS. Semelhanças não faltam entre a Rússia soviética e a Rússia moderna, principalmente no âmbito da projecção da influência russa, não só na Ásia Central como também na região do Cáucaso. Ora, enquanto as forças norte-americanas mantiverem uma presença vincada em ambas as regiões, os interesses expansionistas russos serão gradualmente desafiados por tal presença, facto que dificilmente será evitado, dada a aproximação ao Ocidente por parte de muitas das ex-repúblicas soviéticas. Todavia, a influência de uma grande potência como a Rússia na Ásia Central está longe de ser posta em causa, dada a proeminência do seu papel na Comunidade dos Estados Independentes.
Citando o caso do Uzbequistão, apesar de Islom Karimov[3] ter adoptado, em meados da década de 90, uma postura anti-Rússia ao considerar os laços desenvolvidos com os EUA como um mecanismo de distanciar o seu país da Rússia, o Uzbequistão não deixava de pedir auxílio àquela em momentos de extrema necessidade. Porém, as relações entre o Uzbequistão e os EUA degradaram-se no seguimento das “revoluções coloridas”, nomeadamente a Revolução das Tulipas no Quirguistão, a qual gerou instabilidade interna no Uzbequistão, sentindo-se o regime de Karimov ameaçado. Tal precariedade atingiu o seu auge quando Karimov exigiu aos norte-americanos para que abandonassem definitivamente a base áerea em Karshi Khanabad[4], o que viria a acontecer em Novembro de 2005. Tal situação favoreceu a Rússia, a qual passou a desempenhar militarmente um papel ainda mais activo no seio dos Estados-Membros centro-asiáticos da Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), excepto o Cazaquistão.
Como principal parceiro euroasiático dos EUA, o Cazaquistão é, por isso, o pivot da política externa norte-americana na Ásia Central. Os interesses dos EUA no Cazaquistão são sobretudo económicos, uma vez que este constitui um dos maiores produtores mundiais de petróleo, apresentando igualmente uma política económica próxima da economia de mercado.
Na elaboração da sua política externa e no processo de tomada de decisão doméstico, o Cazaquistão tem enveredado por uma política multi-vectorial, conjugando os seus interesses prioritários com os interesses da Rússia, China, EUA e União Europeia, o que lhe tem granjeado um bom relacionamento com os mais diversos actores, ao mesmo tempo que se vai assumindo como potência regional.
O Quirguistão, pelo contrário, possui reservas de gás natural e petróleo irrelevantes, o que o obriga a manter-se na dependência de energia estrangeira, nomeadamente do Uzbequistão e do Cazaquistão. Dada a pequenez da economia quirguiz, o país tem enveredado por uma política de “caça ao parceiro”, traduzindo-se na necessidade de captar ajuda externa, principalmente dos EUA, não só a nível da assistência técnica e dos investimentos como também a nível militar. No fundo, o Quirguistão, embora procure manter uma postura neutra, tenciona manter boas e estáveis relações com a superpotência norte-americana, não deixando porém de ser fortemente influenciado pelos interesses do eixo Pequim-Moscovo. Tal é visível na difícil negociação com que os americanos se depararam aquando da renovação dos direitos de acesso e de utilização da base aérea de Manas, pelos quais tiveram de pagar uma quantia mais do que significativa, nomeadamente se comparada com a facilidade com que os russos obtiveram uma base semelhante.
Por sua vez, o Tajiquistão é o membro da OCX que mais lentamente se desenvolveu, após ter sido mergulhado numa violenta guerra civil durante cinco anos (1992-1997). Actualmente, o país insere-se na fase de reemergência na cena global, baseada no desejo de melhorar as relações com os Estados Unidos, embora não tenha nenhum interesse em se opôr à Rússia, cuja influência permanece vivamente presente. Tal como o Quirguistão, o Tajiquistão possui reservas de petróleo e gás natural limitadas, o que implica um relativo desinteresse e afastamento das atenções por parte dos investidores estrangeiros, especialmente ocidentais.
Da breve análise feita sobre cada um dos Estados-Membros centro-asiáticos da OCX e das respectivas relações com os EUA, chegamos à conclusão que os interesses económicos e securitários dos EUA, mais concretamente a exploração energética e o combate ao terrorismo, se sobrepõem à democratização e promoção dos direitos humanos.
É de salientar que as empresas petrolíferas dos EUA foram dos primeiros actores internacionais a perceber a importância e a riqueza da Ásia Central. Aliás, um pouco antes de os norte-americanos terem aberto embaixadas nas ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, já as grandes empresas americanas se tinham dirigido à região afim de avaliar as possibilidades energéticas, movidas pelas primeiras descobertas de gás natural e de “ouro negro” pela multinacional Chevron no Cazaquistão. A Chevron foi a primeira multinacional petrolífera[5] de prestígio a instalar-se no Cazaquistão, sendo actualmente a empresa privada [do ramo energético] líder no mercado cazaque.
Rica e detentora de reservas e vastos cruzamentos de pipelines de petróleo e de gás natural[6], a região euroasiática, a qual inclui o Cáucaso e a Ásia Central, constitui um ponto de atracção a vários níveis que, sem dúvida, não deixará de suscitar apetites, não apenas por parte dos Estados vizinhos como também de Estados longínquos. Os EUA são, sem dúvida, o melhor exemplo.
De um modo geral, se compararmos os interesses que as três superpotências (EUA, Rússia e China, respectivamente) têm na Ásia Central, chegamos à conclusão que a estratégia por detrás da política adoptada pelos Estados Unidos é sobretudo anti-monopolista[7], ao contrário da China e da Rússia que, tal como foi anteriormente referido, têm adoptado uma postura de cariz imperialista. O monopolismo sino-russo, notório no seio da OCX, traduz-se na tentativa de expandir as aspirações hegemónicas de Pequim e Moscovo na Ásia Central, diminuindo assim a soberania efectiva dos Estados centro-asiáticos e, em particular, o poder militar e a influência americana na região. De facto, a capacidade da China e da Rússia de promoverem alinhamentos ad hoc anti-americanos ficou bem patente na Cimeira de Astana[8], em Julho 2005, cuja declaração final exigia que fosse fixada uma data para a retirada das forças militares internacionais, principalmente norte-americanas, instaladas na Ásia Central, desde o ataque contra o Afeganistão, em Dezembro de 2001.
Conscientes do carácter “anti-americano” da OCX, os EUA pretendem, de qualquer das formas, continuar a marcar uma presença efectiva na Ásia Central, com o objectivo de impedir o surgimento de uma ou mais forças imperiais cujos interesses possam eventualmente pôr em causa não só a independência dos Estados centro-asiáticos, como também os interesses estratégicos norte-americanos.

[1] Actualmente membros da Comunidade dos Estados Independentes (CEI).
[2] Ariel Cohen, “U.S. Interests and Central Asia Energy Security”, Backgrounder nº 1984, Heritage Foundation, 15 de Novembro de 2006.
[3] Presidente do Uzbequistão desde 1991.
[4] Tal base aérea, também conhecida por K2, fora cedida pelo governo uzbeque aos EUA, em Dezembro de 2001, como uma forma de expressar aos norte-americanos o apoio à luta contra o terrorismo islâmico e, em particular, a Al-Qaeda, no vizinho Afeganistão.
[5] In http://careers.chevron.com/global_operations/country_operations/Kazakhstan.
[6] Ver mapa em baixo.
[7] Stephen J. Blank, “U.S. interests in Central Asia and the challenges to them”, Strategic Studies Institute, Março de 2007, p. 3.
[8] Conferência da Organização de Cooperação de Xangai, realizada na capital do Cazaquistão, em que o Irão, o Paquistão e a Índia participaram como observadores.

0 Comments:

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

Links to this post:

Create a Link

<< Home