My Irreversible Point of View

Unfortunately freedom of speech is not totally respected in some parts of the world. That is why I decide to express my point of view in the name of those who are not allowed to express themselves. STAND UP, SPEAK UP! STOP THE TRAFFIK

Saturday, February 23, 2008

Etno-nacionalismos

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Debrucemo-nos sobre um conceito do século XX que, em larga medida, se desenvolveu graças à divulgação da imprensa, veículo por excelência que permite às pessoas comunicarem umas com as outras, potenciando o desenvolvimento de sentimentos nacionalistas.
São vários os autores e correntes identificadas em torno desta temática. A corrente modernista, por exemplo, sublinha uma explicação de cariz económico. Neste quadro enfatiza-se o desenvolvimento de um espaço nacional através do desenvolvimento económico das potências, isto é, um espaço económico delimitado por fronteiras.
Já uma outra corrente, da qual faz parte Benedict Anderson, aborda a nação enquanto uma comunidade imaginada. Quer isto dizer que os indivíduos de uma dada nação, embora na sua generalidade não se conheçam uns aos outros, sentem-se parte de uma comunidade, designadamente a comunidade nacional ou nação.
Para além de ser um movimento social e político, o nacionalismo possui igualmente uma vertente ideológica muito forte, uma vez que tenta congregar energias e forças de modo a conseguir um todo coerente a que designamos de Estado-Nação. Embora aponte para especificidades e particularidades, é importante não deixarmos de reconhecer que o nacionalismo alimenta-se muito da globalização e das respectivas dinâmicas.
O nacionalismo propõe a criação de um Estado como pragmatização de um projecto de uma comunidade que, dadas as suas particularidades, pretende assumir-se a uma voz como entidade política autónoma. Ora, a globalização tende, muitas vezes, a apagar os traços distintivos comunitários, favorecendo a massificação. Parecem-nos, pois, tendências totalmente antagónicas! Como conciliá-las?
De facto, o nacionalismo alimenta-se da globalização na medida em que esta, igualmente, gera um outro efeito: a enfatização das diferenças. É necessário não deixarmos de ter presente a noção de que só temos consciência das nossas diferenças - neste caso específico, diferenças enquanto grupo ou comunidade - quando somos confrontados com outras identidades, diferentes, com traços distintos que as tipificam segundo padrões que não são os nossos.
Vejamos, então, um caso específico: Timor-Leste.
Existe uma comunidade de timorenses que habita a parte oriental da ilha de Timor - hoje, Timor-Leste - que se distingue dos demais timorenses (indonésios), habitantes de Timor ocidental ou "Timor indonésio". O primeiro e o segundo grupo distinguem-se por razões diversas, nomeadamente históricas, as quais acabaram por ter reflexos profundos ao nível da religião e da cultura. Os timorenses destacam-se dos indonésios principalmente quanto à religião - os primeiros são cristãos e os segundos são muçulmanos - e à língua - os timorenses não falam a língua indonésia, o bahasa, mas sim o tetum e, muitos, até o português.
Todos estes elementos contribuíram para formar as bases do programa nacionalista timorense, o qual veio a conhecer um grande impulso devido à dinâmica da globalização. De facto, se não tivessem sido os efeitos do processo globalizante a comunidade timorense teria, muito possivelmente, permanecido até agora um mero movimento separatista, como tantos outros.
Em 1991, a Indonésia abre, a vários níveis, as respectivas portas ao exterior. Tal nova linha de acção permitiu, inclusive, uma maior facilidade de movimentação da imprensa nacional e de entrada dos mass media internacionais. Graças a tal, um jornalista da BBC assistiu e filmou o massacre de Santa Cruz, tendo posteriormente transmitido a notícia para o mundo inteiro.
Uma outra vertente que deve ser referida prende-se com a entrega do Prémio Nobel da Paz a José Ramos Horta, em 1996, - facto, por si só, fruto da dinâmica global dos acontecimentos ocorridos em pleno território timorense - altura em que já se verificava uma forte rede de solidariedade da sociedade internacional para com a causa timorense. Não menos influência teve a internet e o fenómeno www.
Assim chegaríamos a 1997-1998, período caracterizado pela grande crise económica e financeira no Sudeste Asiático. Tal crise teve como epicentro a Tailândia, a qual se viu obrigada a desvalorizar a moeda nacional, o bath - como estratégia de fazer face à crise -, tornando assim os produtos nacionais mais baratos de modo a aumentar as exportações.
E foi precisamente em 1998 que o indonésio Suharto foi afastado do poder. Consequentemente foram abertas margens de manobra para a celebração de um acordo que levasse à realização de um referendo no actual Timor-Leste. Tal veio a acontecer em 1999, tendo 80% dos timorenses votado pela independência face à Indonésia.
Todo este conjunto de factores potenciados pela globalização abriram portas a um novo cenário, marcado pela declaração de Timor-Leste como Estado independente, em 2002.
Neste contexto, as dinâmicas da globalização atribuíram grande notoriedade à questão timorense, que de outra forma não teria sido conseguido o alcance da independência. Portanto, neste sentido, teremos acima de tudo de concordar que o nacionalismo acaba sempre por beneficar das dinâmicas globalizantes.
Um pouco por todo o mundo têm surgido - e continuarão a surgir - focos de reclamação identitária, uma vez mais devido à globalização, ao mesmo tempo que se assiste à fragmentação de grandes espaços regionais. Naturalmente, tudo isto está ligado às lógicas imperiais e à sobreposição de nacionalismos a que tais lógicas obrigam. Veja-se, por exemplo, o desmoronamento da URSS, da Jugoslávia e o caso africano. Em relação a África, em particular, há que fazer alusão a duas fases: a divisão do continente, resultante da Conferência de Berlim (1885), e as guerras coloniais e a consequente independência dos países africanos, na segunda metade do século XX.
Ao longo da História da Humanidade, os processos de separação e secessão têm sido uma constante, revelando uma maior incidência e notoriedade depois da Segunda Guerra Mundial, mas principalmente após a Guerra Fria. Porém, existem múltiplos problemas de segurança local, regional e/ou internacional causados por movimentos de natureza separatista. Tratam-se de movimentos separatistas praticamente condenados ao fracasso, os quais, pelo menos uma boa parte daqueles, acabam posteriormente por entrar nas fileiras dos "failed states". Veja-se, a título de exemplo, o caso dos Chechenos e o do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).
A comunidade curda - composta por mais de trinta milhões de pessoas, muitas das quais se encontram exiladas nos Estados Unidos e em países da União Europeia - habita, na sua generalidade, uma enorme região do Médio Oriente que ultrapassa as fronteiras da Turquia, Irão, Arménia, Síria e Iraque. O nordeste iraquiano ou "Curdistão iraquiano" é, aliás, uma região autónoma federalmente reconhecida pelo governo iraquiano, tanto a nível político, económico e étnico. Como tal, possui um governo próprio, isto é, um Presidente e um Primeiro-Ministro.
Espantosamente, os curdos constituem a nação mais numerosa do mundo sem Estado! Como se resolve uma situação destas? Normalmente, casos semelhantes a este não se resolvem de forma pacífica. Em tais casos, as definições de nação, povo e etnia, do ponto de vista conceptual, estão longe de ser consensuais, ou seja, a fronteira entre os três conceitos é bastante ténue.
Por outro lado, e citando um outro exemplo, a formação de Estados-Nação em África no imediato pós-Segunda Guerra Mundial é per si "wishful thinking". No continente africano, em geral, a comunidade designadamente povo é, em verdadeiro rigor, um conjunto de etnias que se desentendem. Mais ainda, a etnia dominante, a que está no poder, frequentemente não tem representatividade nacional como normalmente a entendemos, pelo que não age no quadro da administração e do governo na defesa do interesse geral, mas apenas na defesa dos interesses da própria etnia.
Ainda assim, o "state building" ou "nation building" continua a ser tentado nas mais variadas regiões do mundo no qual habitamos. Naturalmente, os factores que se opõem e que favorecem o nacionalismo - a lista é imensa - variam de caso para caso.
Ultimamente, o nacionalismo tem sido demonstrado, com frequência, de forma agressiva e fortemente hostil face ao exterior, recorrendo a uma atitude aliada à força que, por vezes, descama em atitudes xenófobas e de intolerância face a tudo o que é diferente. Tal tipo de atitudes prende-se com o aparecimento de problemas de grande expressão no mundo actual: as migrações; uma certa desconfiança face a tudo o quanto sejam instituições supranacionais; hostilidade para com os media globais; etc. São, no fundo, factores do nacionalismo exacerbado e da consequente luta pelo particular.
O nacionalismo torna-se, assim, num sistema de legitimação para a criação de um Estado-Nação. Consequentemente concebe-se um sistema de Estados que funciona com base no princípio do nacionalismo, procurando conciliar a realidade e o sonho da "nation building" ou "state building".
Frequentemente os mecanismos utilizados para a criação de um Estado-Nação são, todavia, falaciosos. São utilizados todos aqueles elementos ditos "nacionais" de forma a não deixar morrer mas revitalizar a "comunidade das coisas que se amam". Ora, é neste ponto que por vezes reside o problema: muitos amam coisas diferentes. Veja-se a divisão entre flamengos e valões, na Bélgica, e entre utos e tutsis, no Ruanda.
Em suma, o nacionalismo, nascido há seculos atrás, e o etno-nacionalismo, nascido no século XX, constituem fenómenos que carecem de resolução, correndo o risco de permanecerem não resolvidos.

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