My Irreversible Point of View

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Tuesday, June 03, 2008

O Movimento Islâmico do Turquestão Oriental: terrorismo na China?

1. Características e objectivos

Não se sabe ao certo em que ano foi criado o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental (ETIM), dada a escassez de informação e o desconhecimento geral acerca da sua existência, particularmente no mundo ocidental. O grupo separatista uigur foi fundado por Hasan Mahsum, também conhecido por Abu Muhammad al-Turkestani, que nos finais da década de 80 se envolveu em movimentos independentistas uigurs, advogando a independência do Turquestão Oriental, e simultaneamente participou em diversos treinos junto de outros grupos jihadistas, incitando à violência contra os “infiéis”, referindo-se aos chineses. Hasan Mahsum foi morto pelas tropas paquistanesas a 2 de Outubro de 2003 quando estas atacavam violentamente uma base pertencente à Al-Qaeda no sul do Waziristão, região situada a noroeste do Paquistão que faz fronteira com o Afeganistão.
Desde 1990, o ETIM tem-se envolvido numa série de violentos incidentes no interior da China. De um modo geral, estamos perante uma organização violenta, a qual tem cometido inúmeros actos terroristas, utilizando um conjunto diverso de tácticas como assassínios, fogo posto, envenenamentos e ataques bombistas. Em termos quantitativos, o ETIM é responsável por 200 actos terroristas cometidos em Xinjiang nos últimos 18 anos, que resultaram num total de 166 mortos e mais de 440 feridos[1]. As vítimas pertencem essencialmente a diferentes grupos étnicos e estratos sociais; neles incluem oficiais de exército, aldeões, pessoal religioso, mulheres e crianças. Tais incidentes têm largamente ameaçado vidas e propriedades de pessoas inocentes na região e, ao mesmo tempo, têm tido um impacto negativo na sociedade chinesa, assim como nos países vizinhos de maioria islâmica.
O modus operandi adoptado pelo ETIM pode ser dividido em várias categorias, entre as quais incluem, em primeiro lugar, ataques no interior da China; em segundo lugar, ataques fora do território nacional chinês; em terceiro lugar, ataques contra os Han; e, finalmente, ataques tendo como alvo minorias étnicas, tais como os próprios uigurs. Tal como veremos mais adiante, o ponto 3. proporciona-nos uma lista de alguns atentados cometidos entre 1990 e 2001[2], os quais revelam claramente que o ETIM recorre a meios violentos, de modo a alcançar os seus objectivos. Deste modo, estamos em condições de dizer que o ETIM vai ao encontro da definição de terrorismo da autoria do Federal Bureau of Investigation (FBI)[3]: “...a utilização ilegal da força e da violência contra pessoas ou propriedades afim de intimidar ou coagir o governo, a população civil ou qualquer segmento desta, com o objectivo de atingir objectivos e sociais”.
Partindo desta definição, existem obrigatoriamente quatro elementos-base para a qualificação de um grupo como terrorista. Em primeiro lugar, os objectivos do terrorismo são fundamentalmente políticos, ou seja, todo o terrorismo é um acto político[4], ao contrário do fenómeno da criminalidade organizada. O ETIM possui um objectivo político bastante claro[5]: a separação de Xinjiang da República Popular da China e a criação de um Estado Islâmico, como foi visto anteriormente.
Em segundo lugar, o terrorismo envolve sempre o uso da violência ou a ameaça da sua utilização, que inclui o fogo posto, assassínios, ataques bombistas e físicos, e envenenamento. Os instrumentos violentos utilizados pelo ETIM são genericamente semelhantes àqueles utilizados por outros grupos islâmicos fundamentalistas excepto, pelo menos por enquanto, o terrorismo suicida[6].
Em terceiro lugar, os alvos do terrorismo são sobretudo infra-estruturas e civis, os quais incluem idosos, mulheres e crianças. Os civis são, sem dúvida, o principal target, embora polícias, oficiais de exército e de governo, e figuras religiosas não fiquem igualmente de fora. Neste contexto, devemos estabelecer a distinção entre dois tipos de terrorismo, tendo em conta o target: o terrorismo indiscriminado e o terrorismo selectivo[7]. No primeiro caso estão incluídos todos os atentados que se destinam a fazer um dano a um agente previamente indefinido. É irrelevante quem morre ou fica ferido, pois o que importa é hajam muitos mortos e feridos. Já o segundo caso corresponde ao oposto do primeiro, ou seja, visa atingir directamente um alvo previamente definido e conhecido, com o objectivo de o pressionar, chantagear ou até mesmo de o eliminar.
Finalmente, os terroristas pretendem, através dos seus actos, espalhar o pânico como fazendo parte dos respectivos objectivos políticos. Deste modo, o ponto 3.3., uma vez mais, pretende mostrar-nos a forma como o ETIM tem tentado produzir o pânico geral através da prática de actividades terroristas, as quais têm sido apoiadas e financiadas por Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda.
Por outro lado, o ETIM construiu inúmeros campos de treino nas zonas mais remotas de Xinjiang. Entre 1990 e 1993 foram detectados pelo menos três campos de treino no pequeno território de Yecheng, situado a oeste de Xinjiang. Estima-se que, no mesmo período, 60 membros foram treinados em Yecheng e, de seguida, envolveram-se numa série de assaltos, assassínios e explosões. Só em 1998 Hasan Mahsum orientou dezenas de treinos, especialmente dirigidos a células compostas por 150 membros. Tal como a Al-Qaeda, embora de forma mais limitada, o ETIM actua em rede, em grande parte graças aos fundos financeiros concedidos pela população uigur da diáspora. Tal rede é composta por diversos subgrupos, entre os quais se destacam os seguintes: Organização para a Libertação do Turquestão Oriental, Comité Internacional do Turquestão Oriental, Hezbollah Uigur (localizado no Cazaquistão), Partido do Turquestão (localizado na Turquia), Liga dos Jovens do Turquestão Oriental (localizada na Suíça) e o Movimento da Resistência Islâmica do Turquestão Oriental (localizado na Turquia).
As operações são executadas essencialmente em esconderijos subterrâneos, túneis e abrigos, de modo a que os membros da organização não sejam descobertos e consequentemente capturados. Mesmo assim, nos finais da década de 90, e entrando já no século XXI, a polícia de Xinjiang deteve alguns elementos do ETIM, os quais contrabandeavam armas para a região, e apreendeu, nos locais onde os treinos eram efectuados, uma diversidade de materiais explosivos, desde granadas manuseáveis, granadas anti-tanque, detonadores, pistolas e munições. Além disso, os membros capturados foram acusados de terem posto em marcha uma grande onda de assassínios, não apenas em Xinjiang como também em alguns países vizinhos, nomeadamente da Ásia Central.
Em Maio de 2002, o Quirguistão deportou dois indivíduos de etnia uigur, membros do ETIM, e, segundo o que as provas ditavam, ambos planeavam executar ataques contra embaixadas, centros comerciais e praças públicas na capital quirguize, Bishkek. Um dos suspeitos, Manet Yasyn, transportava consigo um falso passaporte turco no momento em que foi detido[8].
De facto, os fundos financeiros recebidos pelo ETIM, destinados à compra de equipamentos e de armas e a dar continuidade às suas actividades, não provêm apenas da diáspora uigur. Sendo considerada a organização mais radical de Xinjiang, o ETIM é simultaneamente a organização uigur que mantém relações mais estreitas com a Al-Qaeda, o que não deixa de preocupar as autoridades de Pequim, pelo facto de um maior número de ataques no interior da China poder ser iminente[9].

2. Aliança com a Al-Qaeda

O maior sucesso da Al-Qaeda consiste na capacidade de inspiração e de influência sobre uma grande parte dos muçulmanos no Médio Oriente, em África, na Ásia e até na Europa, no que concerne à sua ideologia, a da jihad. Ao proporcionar armas, treino e financiamento a vários grupos islâmicos, a Al-Qaeda contribui para o fortalecimento daqueles na luta contra os respectivos governos e os não muçulmanos (“os infiéis”). O ETIM é, segundo um relatório publicado pelo governo chinês em Janeiro de 2002, beneficiário do apoio por parte da Al-Qaeda.
Tal como foi já referido, centenas de uigurs foram treinados no Afeganistão juntamente com os Taliban e com a Al-Qaeda, tendo igualmente participado na guerra soviético-afegã. Nos inícios de 1999, Osama Bin Laden encontrou-se com Hasan Mahsum, oferecendo-lhe assistência financeira. Desde Outubro de 2000, Bin Laden e os Taliban concederam ao ETIM centenas de milhares de dólares, com o objectivo de cobrir as despesas relacionadas com as actividades que o grupo separatista uigur iria executar a partir de 2001.
Para além dos campos de treino da Al-Qaeda e dos Taliban, sabe-se que alguns elementos do ETIM foram igualmente treinados em campos de treino pertencentes ao Movimento Islâmico do Uzbequistão. Os respectivos programas de treino incluíam a utilização de armas convencionais, tácticas de guerrilha, explosivos, entre outros. Após os treinos, os militantes uigurs foram enviados para combater no Afeganistão, na Chechénia e no Uzbequistão, ou então conduzir actividades terroristas em Xinjiang. Neste contexto, estamos em condições de salientar que, de certa forma, o ETIM faz parte daquilo que é designado por irmandade da jihad global[10].
Embora as forças de segurança e os serviços de informações chineses tenham empreendido inúmeros esforços no sentido de combater o fundamentalismo islâmico uigur, em geral, e de neutralizar as actividades jihadistas do ETIM, em particular, é certo que a presença internacional da organização, através dos respectivos subgrupos, desde a Ásia Central à Europa, torna o seu desmantelamento praticamente impossível. Há que sublinhar, por outro lado, o papel importante que o centro de difusão de propaganda uigur, sediado na cidade alemã de Munique, e o Governo do Turquestão Oriental no exílio[11], mais concretamente nos Estados Unidos, desempenham para manterem vivo o ETIM. O seu carácter transnacional permitiu-o explorar as liberdades e direitos humanos ocidentais e, consequemente, dar continuidade às suas actividades subversivas, tal como fez e continua a fazer a Al-Qaeda.
A cooperação entre a Al-Qaeda e o ETIM serviu de promoção de conflitos de maior intensidade na Ásia Central e em Xinjiang, a partir dos finais de 1999. Tendo beneficiado da ajuda financeira e material de Bin Laden e dos Taliban, o ETIM viu reunidas todas as condições necessárias para o seu crescimento, através do recrutamento de mais e novos membros.

3. Atentados em nome do Islão

Não tendo como objectivo elaborar uma lista extensa sobre as actividades jihadistas efectuadas pelo ETIM, o ponto 3.3. pretende apenas demonstrar o carácter violento da organização, assim como a sua capacidade de desestabilizar a China, tendo sempre em vista a libertação de Xinjiang.
Eis, por um lado, alguns exemplos de atentados terroristas ocorridos dentro da China:
· 5 de Abril de 1990: alguns membros mais novos do ETIM fizeram dez pessoas reféns, destruíram dois carros e mataram seis agentes de autoridade, a noroeste de Xinjiang. Mais de cem civis ficaram feridos.
· 28 de Fevereiro de 1991: ocorreu uma explosão num terminal de autocarros, no distrito de Kuqa, Xinjiang, provocando um morto e treze feridos. O ETIM tinha planeado um outro ataque bombista para o mesmo dia, porém nada explodiu.
· 5 de Fevereiro de 1992: o ETIM fez explodir dois autocarros em Urumqi, capital da província de Xinjiang, causando três mortos e vinte e três feridos. No mesmo dia foram detectadas, a tempo, mais duas bombas, uma num cinema local e a outra num prédio residencial.
· 17 de Junho a 5 de Setembro de 1993: o ETIM foi responsável por um total de dez explosões, ocorridas em lojas, mercados, hotéis e centros culturais na cidade de Kashgar, Xinjiang. Apenas morreram duas pessoas e cerca de vinte e oito ficaram feridas.
· 12 de Maio de 1996: Arunhan Aji, membro do comité executivo da Associação Islâmica da China, e o seu filho foram repetidamente apunhalados, ficando gravemente feridos, enquanto caminhavam em direcção à mesquita de Aitga, em Kashgar, para rezar.
· 5 a 8 de Fevereiro de 1997: um violento tumulto teve lugar em Yining, Xinjiang, e foi planeado por alguns membros do ETIM, os quais apelavam ao estabelecimento de um Reino Islâmico na província. Três pessoas morreram, cerca de duzentas ficaram feridas e trinta veículos foram vandalizados.
· 30 de Janeiro a 18 de Fevereiro de 1998: o ETIM foi responsável por vinte e cinco casos de envenamento ligeiro em Kashgar, um caso de morte por envenenamento e quarenta outros casos de envenenamento no sul de Xinjiang, provocando graves efeitos ao nível da saúde humana. Também milhares de animais domésticos foram mortos por envenenamento.
· 11 de Outubro de 1999: três dispositivos explosivos foram colocados numa fábrica de algodão em Hotan, Xinjiang. Apenas um dispositivo explodiu, destruindo cerca de duas toneladas de algodão.
· Janeiro de 2001: Akbelbek Timur, membro do ETIM, fez o contrabando de uma série de explosivos provenientes do Cazaquistão na tentativa de cometer atentados terroristas em Xinjiang. Foi posteriormente detido pelas autoridades chinesas.

Por outro lado, há que destacar o carácter transnacional do grupo, mencionando exemplos de atentados terroristas executados fora da China, a saber:
· Fevereiro de 1997: membros do ETIM dispararam contra o Consulado-Geral da China em Istambul, Turquia, atacando-o de seguida, e posteriormente queimaram a bandeira nacional chinesa.
· 5 de Março de 1998: os membros anteriores atacaram, desta vez à bomba, o mesmo Consulado-Geral.
· Novembro de 1999 e Agosto de 2000: a organização uigur esteve envolvida na rebelião armada e invasão no sul do Uzbequistão e do Quirguistão, ambas lideradas pelo Movimento Islâmico do Uzbequistão.
· Março de 2000: Nighmet Bosakof, presidente da Aliança da Juventude Uigur no Quirguistão, foi atingido mortalmente a tiro perto de casa, por se ter recusado a cooperar com o ETIM.
· 28 de Setembro de 2000: deslocando-se ao Cazaquistão, os elementos que assassinaram N. Bosakof mataram dois agentes de autoridade, que andavam à sua procura afim de os capturar. Tudo aconteceu na cidade cazaque de Almaty.
· Maio de 2001: também em Almaty, o ETIM assaltou uma carrinha pertencente a um banco, que transportava uma grande quantia de dinheiro.

A partir dos atentados de 11 de Setembro de 2001, o mundo mudou profundamente, tendo a sociedade internacional lançado uma verdadeira guerra contra o terrorismo internacional e o fundamentalismo islâmico. O ETIM passou, sem dúvida, a ser um dos alvos desta guerra.

[1] John Z. Wang, op. cit., p. 575.
[2] B. Raman, “Explosions in Xinjiang”, Observer Research Foundation, 27 de Janeiro de 2005 (disponível em www.observerindia.com/cms/sites/orfonline/modules/analysis/AnalysisDetail.html?cmaid=2151&mmacmaid=81, consultado a 18 de Abril de 2008).
[3] Federal Bureau of Investigation, “Terrorism in the United States”, Counterterrorism Threat Assessment and Warning Unit and Counterterrorism Division, 1999 (disponível em www.fbi.gov/publications/terror/terror99.pdf, consultado a 19 de Abril de 2008).
[4] Cfr. António de Sousa Lara, O Terrorismo e a Ideologia do Ocidente, Almedina, 2007, p. 43.
[5] Quando nos referimos aos objectivos políticos do ETIM, assim como da Al-Qaeda e de outras organizações islâmicas que utilizam o terrorismo como meio de alcance dos respectivos fins, não deveremos nunca descartar a componente religiosa que, embora não possua o mesmo grau de importância comparadamente à componente política, é frequentemente utilizada como fundamento para cada acto terrorista cometido. Daí fazer sentido utilizar o termo fundamentalismo islâmico, e não terrorismo islâmico, porque terrorismo e religião não se confundem.
[6] Visando igualmente um objectivo político, o terrorismo suicida é um fenómeno em que um ou mais indivíduos estão dispostos a sacrificar as suas vidas para destruir um determinado alvo, estático ou móvel, através da realização de ataques suicidas. Para uma melhor compreensão do fenómeno, vide Daniela Siqueira Gomes, “O Terrorismo Suicida Feminino: O caso dos Tigres Tamil”, in Jornal Defesa e Relações Internacionais, 07 de Fevereiro de 2008 (disponível em www.jornaldefesa.com.pt/conteudos/view_txt.asp?id=556, consultado a 19 de Abril de 2008).
[7] Cfr. António de Sousa Lara, op. cit., p. 44.
[8] John Z. Wang, op. cit., p. 577.
[9] Rohan Gunaratna e Kenneth George Pereire, “An Al-Qaeda Associate Group Operating in China?”, in China and Eurasia Forum Quarterly, Volume 4, No. 2, 2006, pp. 58-59, (disponível em http://www.silkroadstudies.org/new/docs/CEF/Quarterly/May_2006.pdf, consultado a 16 de Março de 2008).
[10] Rohan Gunaratna e Kenneth George Pereire, op. cit., p. 60.
[11] Vide www.eastturkistangovernmentinexile.us (The Government in Exile of East Turkestan Republic).

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